E eu já não sei onde ela mora. Pode ser aqui nesse mundo ou lá fora. Não posso mais passar em frente a casa dela para matar de mentirinha a saudade. Agora ela é moradora da cidade, cidadã do mundo. Está em qualquer lugar, só não está aqui. São dez ruas abaixo ou dez ruas acima, são dez baldes de tinta. A casa dela é uma tela em branco, com janelas de madeira e só isso que eu sei. Sei que tem plantas, sei que cuida delas, mas não sei se são flores. Sei que detesta que acendam a luz sem avisar, mas não sei onde fica o interruptor. Sei que ela é elétrica, mas já não sei para onde vai toda a descarga dessa energia. Sei que ela dorme, sei que ela sonha, mas não sei como é a cama dela. Pode ser uma casa bonita, um casarão mal-assombrado ou a caixa-forte do Tio Patinhas, pode ser em qualquer bairro, ter o tamanho de um arranha-céu ou a sinceridade de um casebre, mas sei que não é a casa amarela em frente ao pet shop. Sei que são seis reais de táxi, o que provavelmente dá dois quilômetros e meio de raio de abrangência de onde estou. Sei muitas vezes para onde ela vai, para o trabalho, para a faculdade ou ainda para o samba no dia de sábado. Mas não sei de onde ela vem. E quando ela está comigo, eu sei de onde ela vem, mas eu não sei para onde ela vai. De onde ela vem ? Da rua de cima, da avenida movimentada ou da esquina ? Da terra dos sonhos, dessa cidade perdida ou ela vem longe, lá de Paris ? Quando ela não está aqui, ela está em todo lugar, em cada amanhecer, no dia que vai se render, na rua que um dia eu passei e nem notei. E eu ando por aí, os olhos alertas, os sentidos alertas, o coração alerta. E perto de dormir, quando abro a janela e fumo um cigarro, eu a vejo em todos os carros passando. E chego a inevitável conclusão que estava a espreita o tempo todo e eu não percebi.

Ela está aqui, ali e em todo lugar.

Quando eu era pequeno, me disseram que se eu quisesse muito uma coisa, era só fechar os olhos e desejar bem forte. E cá estou eu, do alto dos meus vinte e três anos, feito criança esperançosa, com os olhos fechados bem fortes e desejando ainda mais forte. E o que eu quero, não acontece. Tenho um carro, um lugar pra chamar de lar e todas estas outras coisas. Coisas que eu realmente não desejei tanto assim. E o que eu mais quero, não aparece aqui, não se materializa aqui, não bate na janela me chamando para brincar. Quando eu era criança, eu fui bobo e acreditei. Dei nome de esperança e desejo para aquela sensação. Hoje, que sou adulto e vejo as coisas como realmente são nesse mundo, eu chamo de saudade.

É um sentimento de queimação no peito, os olhos fechados imaginando um momento que não existe, a cabeça molhada a encostar no travesseiro e o pensamento em outro lugar que não aqui. E se eu durmo, eu não me esqueço do que tanto sinto falta, eu sonho com isso. Sonho com ela e em como ela faz a tristeza se afastar de mim, ela que me entende do começo ao fim e eu entendo ela. E é ela que tem a cura pro meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi…

Desculpa, Renato, mas hoje essa frase é minha.

Saudade…

E era uma vida normal antes. Normal até demais. Os tons do dia-a-dia eram cinzas, como a maioria das pessoas. E meus dias eram cheios de ois e olás e tchaus e adeus e eu não me importava. Eram só pessoas que iam e uma hora ou outra, iam embora. Eram os bares cheio de cerveja benevolente, para esquecer de uma vida que nunca tive, para desejar um amor que eu pudesse ter, daqueles de verdade, rudes e cheios de vida. Até então, minha vida tinha tidos amores calmos, com a rotina besta a inflamar as ambições, com o conforto frio de estar próximo de alguém e só. O sorriso era um sorriso cheio de pena, dado por compaixão e não por alegria sincera e ardente dentro de mim. Aquelas mulheres eram todas suaves, suaves demais até para mim. Eu podia vê-las calculando a conta da luz, se enchendo de arroubos com uma ida ao cinema, com um jantar barato e esquecível. O trabalho era só o dinheiro, o cifrão na cabeça e os animais nas notas verdes, azuis e amarelas. O lar, o lar era onde a dor estava, com o pensamento do que poderia ser, com a aventura ainda não vivida e com a geladeira abrindo e fechando para pegar água, cerveja ou qualquer coisa que me levasse pela noite. Tudo, até então, era nada. E quando o sol sumia e a noite se revelava mais uma vez, era lugar-comum, era frio mesmo que estivesse quente, era a programação da televisão mais próxima.

Até o dia em que tudo mudou. Eu queria dizer que foi arrebatador assim que a vi, que soube que era amor a primeira-vista eterno e que nossos corações iam explodir e que nossas mentes iam estourar e que nossos corpos iam se encher de tesão. Mas não foi bem assim. Quer dizer, foi. Mas não naquele dia. Naquele dia, foi só uma cantada envergonhada, um telefone dado por interesse de um amigo gay, as promessas que toda noite a gente encontra por aí. E os dias passaram, eu ligava e ela não atendia e eu não desistia. Porquê eu não desistia ? Eu não saberia te dizer. As coisas algumas vezes acontecem sem motivos até o dia que você descobre que tudo teve um motivo. E então teve a primeira vez…

Ao invés de um beijo roubado por mim, um selinho dado por ela no canto da boca e que me incendiou e me fez perder o controle. Aparentemente, desde o primeiro o dia, notava-se que eu não seria o homem da relação. E parece que nunca fui muito mesmo. Era o computador com suas conversas quase de mentiras, com seus devaneios quase imperceptíveis, com a madrugada adentrando e o coração batendo um pouco mais forte. E de alguma forma, sozinho, dentro do quarto, ali já era vida. Com tão pouco, eu ia começando a sentir bem mais, bem mais que todo o tempo da minha vida.

E ela era diferente. E ela é diferente. De alguma forma, ela me fascina. Me fascina mais que os livros, conhecimentos perdidos e símbolos secretos do nosso tempo. Eu olho para ela e vejo uma tela. Uma tela que ao mesmo tempo que está em branco, está em constante eferverscência. E eu sou o homem de óculos escuros, porquê eu já vou te avisando aqui, se você olhar diretamente para ela, o brilho dela te cega. O jeito dela andar te deixa com vergonha. O mundo gira na velocidade dos passos dela. Eu acho que deve ser os olhos sonhadores. Eu acho que deve ser o jeito que ela fala, gesticulando sempre que fala dos sonhos e das aventuras. Eu acho que tem a ver com o jeito que ela morde o lábio quando dança. Mas pode ter a ver também com o jeito que ela sorri quando ela vê algo que gosta. E quando ela coloca a mão dela em mim, eu sinto um calor na espinha, um tremor disfarçado nos olhos, uma interrupção no raciocínio. São três anos e contando e eu sinto a mesma coisa. E como é bom. Com ela, os anos deixam de ser um amontado de dias vazios e se tornam recipientes para aventuras no porvir. Para sonhos que são tão altos que as pessoas precisam olhar para cima. Para aventuras tão distantes que só nós dois conhecemos. De alguma forma bela, ela prova que Einstein estava errado. Ela acelera além da velocidade da luz, ela distorce o espaço-tempo ao redor. Se um dia eu conseguir decifrar o que faz ela se mexer assim, eu viro cientista. Eu postularei e comprovarei que ela pode mudar o tempo. E se eu não conseguir provar, está tudo bem. Ela altera a velocidade que meu coração bate. Ela altera a minha percepção da vida e do que ainda tem para ser feito. A cerveja é mais gostosa ao lado dela, o cinza dá lugar a um espectro de cores imenso, a suavidade dá lugar a intensidade e a paixão barata dá lugar ao amor sedento. Que brilha. Que arde.

E se eu fosse escrever nossa história, aqui não seria, pois existem páginas e mais páginas de amor perdido, desenganos que nos deixaram frios na noite, maldades que nunca superamos. Para além do bem e do mal, isso foi vida. Das selvagens, que arrancaram nossos cabelos. Algumas vezes foi bom, outras não. Mas toda esta história fica para um livro, que eu sei que ainda vou escrever, que eu sei que ela ainda vai ler, que eu sei que as pessoas irão querer algo parecido.

O que escrevo aqui e agora e hoje é para dizer que ela me chama de exagerado. Mas se eu não for exagerado por ela, qual seria o motivo disso tudo ? Qual seria o motivo de eu ter fincado meu pé aqui ? Eu não finquei bandeira nenhuma aqui, ela seria fácil de tirar. Eu finquei o pé, o meu pé nesse país. Nesse território que ela tem. Que é selvagem, que é amistoso sem deixar de ser hostil, que é de difícil exploração, mas tem as paisagens mais belas que o universo pôde conceber. Esse país é ela. E quando ela me chama de feio, que posso eu fazer, a não ser me curvar para receber um carinho gentil, uma palavra meiga que vai me manter quente na noite fria ? Eu já passei da fase de implorar, eu já passei da fase da compaixão. O que sobra agora é ter. É viver. É paixão. É clichê, mas está tudo bem, às vezes o clichê é o melhor a ser falado. E quando ela me chama de ridículo, como eu posso negar ? Se sou eu aquele que exagera ? Quem exagera tende a passar por ridículo, mas cá entre nós, quem liga ? Colocando os fatos e os copos de cerveja na mesa, ela já me ganhou. Acho que falta eu ganhar ela. E se eu ganhar ela, será que vai ser para sempre ? Cá entre nós, não importa se vai ser para sempre ou não. Eu vou acordar toda manhã com a sensação que tenho que reconquistar aquela menina de novo e de novo e de novo e sempre mais uma vez. E eu nunca vou me cansar. Ela pintou minha vida e eu temo que ainda há muitas paredes em branco para pintar. Se eu aprender a desenhar, eu posso pintar a vida dela um pouquinho também ?

E quando ela vem e me mostra o sol…
Eu só consigo dizer que é místico, místico, místico…

E eu vou dormir. E assim como em muitas noites, eu sonho com ela. E eu espero sonhar hoje de novo. Será que alguma noite ela sonha comigo ?

É certo que nos sentimos especiais e esse sentimento nos mantém vivo na noite. É certo que nos achamos diferente do próximo e achamos o próximo tão igual aos outros. E por nos sentirmos especiais, nos sentimos só. Solitários, incompreendidos e até mesmo não amado. E o que quer que tenha acontecido, achamos sempre que quando amamos, aquele sentimento é diferente. Achamos que o nosso sentimento é verdadeiro e diferente e nem sabemos exatamente o que diferencia esse do outro. E assim, nos sentimos fortes, nos sentimos únicos e pensamos que por ser assim, estamos destinado a algo incomum, que fuja da rotina do dia-a-dia e do peso do amor comum. Até o dia em que tudo acaba, a rotina toma conta e as ambições já não são mais altas, nesse momento, não conseguimos entender porquê tudo se acabou, porquê tudo foi jogado no lixo. A televisão, os livros, os contos e as histórias de jornais nos ensinam desde criança que cada um é diferente e que cada um pode estar predestinado a algo arrebatador. E não, nos encontramos no meio de uma sexta-feira com os anos correndo vazios e nada de tão incrível aconteceu em nossas vidas. E nos sentimos sozinhos novamente, vazios por dentro e cheio de maquiagem por fora. Sorrimos sem entender porquê estamos sorrindo. E o amor vai se esvaindo quando o outro está sem-saco, quando o telefone toca e ninguém atende, quando você olha para a janela e só vê a rua morta e vazia demais para sonhar. E você dorme com o sono arranhado, intermitente, acordando pelos sonhos do que poderia ter sido. Pensamos o tempo todo que seríamos diferentes e na realidade, todos tem o mesmo final. Qualquer coisa, qualquer lugar, qualquer pessoa, um dia tem fim.

Ei, você, com seus lápis e canetas colorias, sentada sua mesa, você me tocaria ?
Ei, você, sentada no computador com seus dedos no teclado, você me ouviria ?

Ei você. Abra seu coração, estou indo para casa…

Ah, Bandini… Bandini, você é um cara de sorte. Ao menos no filme, Bandini. Ao menos no filme, você terminou ao lado dela, mesmo que por pouco tempo, Bandini. Mas Bandini, me explica, porquê as pessoas aqui fora no mundo real não tem a mesma sorte, hein, Bandini ? Salte do seu livro e me escreva uma carta. Me explica a impossiblidade do amor nesse mundo, me explica o reinado do orgulho com suas palavras que ferem, Bandini. Eu gostaria de ouvir de você, o grande escritor que escreveu “E o cachorrinho riu..”. Ah, Bandini, faz um favor, quando vier, traz uma garrafa desse whisky que você bebe e beba comigo. Um brinde a sua imortalidade e a minha mortalidade. Bandini, me responde: Existe vida após o amor ?

É o fim do mundo como eu conhecia. De novo. Como pode o mundo acabar tantas vezes ? Como pode a mesma explosão surgir por cima dela mesma ? Um cogumelo nuclear se forma e o céu fica avermelhado. E a explosão não nos leva a lugar nenhum, não nos traz lembranças, não nos leva ao futuro. Nos deixa aqui parado, com sensação de copo vazio, com terrorismo da própria cabeça. Onde estão todas as pessoas ? Onde está toda a vida que existia nestas ruas ? De repente, ela some e não deixa nada para ficar no lugar. Fica o vazio, a calma, o sentimento que está tudo errado e não deveria estar. Eu acreditei em mim mesmo na esperança que eu iria ganhar algo, eu iria ganhar felicidade. Mas e o que ganhei ? A derrota. Na corrida por sonhar, quem perdeu foi eu. Fui eu que fiquei com meus sonhos na privada, com minha alegria na pia e a torneira ligada a levar ela pelo ralo, para um lugar que eu não sei para onde foi. Agora tudo que restou foi a saudade, o sentimento que nada pode dar certo, o pessimismo que mesmo exagerado, se prova sempre certo e correto. E ela não soube se comunicar comigo, eu sempre fui o último a saber das novidades tão ruins, tão péssimas que estragavam meu dia. E estragam ainda.

Ao lado da lápide, a explosão do amor surgiu como pedaços do dia. E depois que explodiu, se foi.

Estavam lá aquelas pessoas todas dizendo o que faziam da vida, quantos anos tinham e qual o seu nome. E nenhuma cumprimentou o próximo, nem o professor. E ela não entendia aquelas pessoas todas falando sobre suas vidas sem ao menos serem educadas. Ela não era assim. Então esperou pacientemente sua vez, a roda ia se consumindo, as pessoas iam falando. Uma era administrador por uma empresa que herdou do pai, outra era recepcionista de telemarketing que queria subir na vida e tantas outras histórias. Quando a vez dela chegou, ela levantou e disse:

- Boa tarde.

Todo mundo riu. Eram nove da manhã.

Ela sentiu vergonha. Mas tinha sido educada. Errou o cumprimento, mas não perdeu a pose. Falou o que era e o que queria ser. Saiu de lá e sonhou, sonhou, sonhou…

Tem rios e tem montanhas. Tem pessoas e tem animais. Tem estrada por aí. E cá estamos nós, parados em meio aos grandes centros empresariais, perdidos no meio de ambições que já não sabemos exatamente o que fazer com elas. E tem todo esse mal por aí, toda essa ganância de um mundo que se afogou em si mesmo. Viram o mar e foram explorar e daí em diante o homem nunca mais foi o mesmo. Não nos enganemos, tem vida por aí também. E porquê estamos parados aqui com tanto medo do que o outro tem para revelar ? Porque não nos abrimos e deixamos o amor tomar conta de maneira intensa e desmedida ? Para quê a cautela em um mundo onde há cautela em cada esquina, nos jogos, nas ações e nas compras do supermercado ? Estamos todos tão preocupados com o prazo de validade das coisas e dos amores que se esquecemos quando ele nasceu, foi fabricado, foi sentido. Porquê nos trancarmos dentro de um quarto e vivermos uma vida essencialmente virtual quando você poderia estar aqui. Eu e você, no mesmo lugar, no mesmo tempo, tornando tudo tão especial. Mas tememos o desconhecido e já não sabemos mais se sentimos saudades ou raiva. Você se tranca no que você chama de lar e busca profissões que nunca vão saciar de verdade a sua sede de viver. E eu me tranco aqui, esperando por você para matar minha sede de viver. E assim seguimos, amando não menos um ao outro, mas mais a solidão, a individualidade, o singular. E nós poderíamos ser plurais, consoantes e vogais. Mas escolhemos por seguir o alfabeto em ordem, cuspindo sílabas para pessoas que nem nos importam. Você escolhe a tranquilidade e a paz solitária, sem saber que aquilo pouco a pouco vai te engolir. E eu sou forçado a participar do teu humor, do teu ritmo, das tuas escolhas. Sem você nunca lembrar que eu estou aqui te chamando, em cima da minha cama, na minha janela, com meu cigarro aceso e minha barriga grande. E eu fico aqui a juntar os pedaços do que um dia fomos, segurando a vontade de te chamar de nariguda. E eu repiso nossos passos, eu refaço nossas conversas e eu relembro nossas memórias. E você aí, do alto da sua cama, do seu reino e do seu livro por ler, esquecendo os sonhos que sonhou comigo, as aventuras que tínhamos para viver. E a música foi sumindo, o amor foi dando lugar a uma admiração contida, uma amizade prolixa que poderia ter sido mais, muito mais. Que nossos sonhos poderiam ter dominado o planeta ou até mesmo nossos quartos. Nossas mentes poderiam ter ido ao paraíso, mas escolhemos por ficar com o conforto frio, com a paz derradeira que você pensou que iria nos redimir. E a redenção estava no amor, no frio na barriga que sentíamos um com o outro. Com o coração meio rápido e meio lento quando eu queria te ver. Com seus olhos soltando faíscas quando falava dos seus planos e sonhos. Sobraram os fogos de artifício que não nos deixaram com nada. E eu prometi nunca sufocar nada que você trouxesse para mim, para nós. Mas mesmo assim, você escolheu um caminho sozinha, sem eu por perto para te ajudar quando você caísse. E eu só sinto saudades mesmo falando com você todo dia. Eu sinto saudades das palavras que eu não posso mais falar, eu sinto saudades das palavras que você nunca falou e que certamente não falará mais. E a Tanzânia ficou para trás como mais um dos sonhos loucos de menino e menina. Para onde vão os sonhos quando eles se acabam ? Eu sonho secretamente com você todas as noites. Eu acordo tremendo em um delírio que me mantém acordado pela noite. E você não está mais aqui para colocar a mão no meu peito. Tampouco para atender uma ligação desesperada de alguém que só sente saudades e quer ouvir sua voz. Pouco a pouco, os dias vão se esvaindo cada vez mais rápido e mais sem sentido. E no meu íntimo, eu sei que não sente saudade de mim. Sei que a cada dia, se sente melhor sem mim. Sem aquele cara que só queria ser um pouco mais. Só um pouco mais. Você alguma vez sonha comigo ? Você alguma vez lê as coisas que eu escrevo e pensa que tomou a decisão errada ? E ainda que haja essa atração que nos manteve pelo tempo, você escolheu ignorá-la. E toda noite, no chuveiro a encarar o frio azulejo alaranjado, com a água a cair e a limpar feridas que não cicatrizam, mas infeccionam, com os olhos abrindo e fechando e o ar me faltando. A minha mente vai longe sem sair do lugar. Vai ao seu lado e te pergunta baixinho no ouvido:

O que é alma ?
Me ame, me dê alma.

E na minha alma ressoa a sua resposta que isso não se pede. E eu fecho o chuveiro para me enxugar, para deixar os meus problemas na pia, para deixar a sensação de vida incompleta na toalha. E quando termino de escovar os dentes e minha cabeça se levanta abruptamente e eu me encaro no espelho, eu vejo você.

Porquê você não está aqui ? Onde está você agora ? Quem é esse cara segurando a sua mão ? Porquê não eu ?

E eu não posso chorar. Eu não tenho como externar o meu amor por você. Eu já não posso falar do seu corpo, da sua silhueta perfeita que tantas vezes vi à meia-luz. Já não posso falar do seu nariz imponente. Nada mais posso dizer dos dias em que éramos dois. O silêncio fica onde uma vez houve palavras, barulho e som de vida acontecendo. Os beijos mandados se tornaram mera cordialidade e a marca das unhas arranhadas não se fazem mais ser vistas. Nós eramos belezas acesas por dentro. Hoje, somos coisas apagadas pelo sofrimento.

E você foi, veio e foi…
E só me diz que não é o fim do mundo.
Que eu devo achar outro alguém e ser feliz assim.
Eu aprendi com você o que é a vida…
Mas agora, tudo é despedida.

Éramos dois. Agora somos um. De novo.

Viva e deixe morrer. Pois eu já vi os sonhos serem despedaçados. Eu certamente notei quando rasgaram a página do livro. E eu esperei que ela falasse comigo, mas ela não falou. E todas as palavras foram sumindo, eu escrevo cada vez menos. Os dias foram sumindo. As noites foram sumindo. Os sorrisos sumiram…

O fim. Estamos sempre chegando mais perto dele. Cada passo é rumo ao final e para mais longe do começo. As palavras deram lugar ao não-dito. O vento assopra onde não há mais pessoas e a realidade deu espaço para o sonho. Sonho esse que é onírico, flores sobrevoam o ambiente e você corre sem saber exatamente para onde. O tempo deu lugar ao estático e tudo parou ali. Eu vi tudo acontecer e nada pude fazer. Eu desci a rua olhando para trás, todos as minhas fantasias deram lugar ao medo. Tudo foi vendido e nada mais é anunciado. Há tanto tempo que te amo e há tanto tempo que espero. O ar fica mais denso e poderia ser dividido em dois com uma faca. Não temos controle sobre as tragédias e ela anda de mãos dadas com o amor. Nossas vida são uma tragédia. Corremos para escapar da rotina e dormimos para nos reinserir no mundo dos sonhos. E quando a gente acorda, tudo que sobrou foi o mesmo. O mesmo está sempre presente. O vazio nos olhos, a calma em preparar o café-da-manhã. O tempo voa e ovcê não sente mais nada, está entorpecido com a presença da solidão.

E às 1:57 da manhã o telefone toca. E ali, naquele barulho desconexo que sempre escolhemos como nosso toque, a gente recupera a esperança. E sabe, no fundo do coração que vale a pena. Vale a pena viver, vale a pena respirar e vale a pena correr sempre para alcançar o ritmo de quem te ligou. E talvez chegue o dia, o dia em que eu possa sair de madrugada e comprar remédio para dor de cabeça e eu possa cuidar dela. E se não chegar, tudo bem, a gente senta e espera. Ela vale a pena todos os anos que eu puder esperar. E quando ela desligou, eu só queria ter dito uma coisa:

Há tanto tempo que te amo…

Eu moro em um quarto. Ao contrário das pessoas, eu não tenho medo que as paredes se fechem nesse cubículo apertado a me sufocar. Eu tenho medo que elas se abram, deixem cada vez mais espaço para respirar e ainda assim eu esteja sozinho. Eu não tenho medo de ficar em uma caixa minúscula, eu tenho medo de ficar em um campo aberto. É no meio de muita gente que você se sente realmente sozinho. É onde a solidão realmente te espreita, olha de soslaio pelo canto da parede e passa a língua nos lábios quando te vê cabisbaixo. E agora eu sei que essa cidade não me pertence, nada aqui me pertence. Nenhum lugar me pertence na realidade. Eu não sou de canto nenhum e nem ninguém nunca quis ser meu. As pessoas que quiseram, eu as chutei pela fresta da porta, as puxei, as estiquei e as magoei. E como sempre, nesse mundo que continua a girar, a pessoa que queremos, não te quer de verdade. É ilusão, é fantasia, é uma vida que você nunca teve. Eu sentia frio e senti calor por um minuto. Um segundo eu estava no paraíso, em outro, eu estava andando pelas ruas e becos a me perder. Até que eu vi aquele coração de papelão na lixeira. Era o meu. E não tinha pessoas lá fora como eu sempre sonhei. Enquanto eu tragava mais fumaça e as pessoas dançavam, eu me virava sem saber o que estava procurando. Se alguém me encarou, eu não pude ver pois as luzes me cegavam. E os dias foram sumindo… As noites foram sendo engolidas pela solidão e no meu quintal alguém deixou um sonho espatifado e em pedaços no chão. E ainda deveriam ter tidos tantas horas de conversa ao telefone, mas as pessoas sempre voltam ao ponto de partida e seguem caminhos separados. Uma garrafa de vinho e eu não podia ver a verdade. Vinte e cinco gramas e eu não via as mentiras ao meu redor. E a minha face era um quebra-cabeça no espelho, toda manhã eu expulsava meus problemas no chuveiro, mas meus problemas, eles aprenderam a nadar. E voltaram pelo ralo sem deixar rastro que um dia eu já tentei expulsá-los. E as palavras bonitas foram cuspidas, as lágrimas foram secadas e o coração ficou em pedra. Para o céu e acima era coisa do passado e o presente não era gentil. O futuro nunca esteve escrito e eu nunca pude pegar uma caneta para tentar escrevê-lo. E todos os filhos, os filhos de banqueiros e filhos de contadores, eles me diziam para deixar passar. E todas as filhas, as filhas de empresárias e as filhas de aposentados, elas me deixavam. Os pais, eu somente envergonhava-os. Agora, tem abandono, nos meus olhos e pelas paredes todas. Existiu um dia de conto de fadas até que ele foi jogado no abismo fundo e sem visão do fim. Teve um tempo em que eu sonhava alto, mas agora eu choro baixo para que ninguém possa ouvir. E eles se viram e me dizem:

- Boa noite.

Todos os sonhos vão se despedaçando como máquinas voadoras em pane.

Eu não sou meu eixo. Há tempos ele se deslocou e foi para outra posição no espaço e no tempo. Perdi o controle sobre as coordenadas e fui solto em alto mar. Olhei para os lados e não havia cordas, botes ou pessoas para conversar. Havia somente o vazio, o oco e a imensidão de uma escuridão sem fim. Eu não deveria ter sonhado tão alto. Não há mais magia no sol do meio-dia e o meu relógio quebrou. O céu tinha uma estrela somente, como que se quisesse me avisar que naquela noite eu ficaria sozinho. Sozinho, com a luz de um satélite a me cegar. E eu estiquei minhas mãos e eu só senti a névoa espessa a envolver minha mão. Era frio. Era sozinho. De tanto falar em vida, acabei por não ter nenhuma, de tanto falar, ela se expulsou de mim com raiva e me mandou a merda. Para um lugar que todos vêem, todos conhecem, mas ninguém vai. Somente eu.

E eu me perdi dentro do meu próprio quarto. E não, não está tudo bem.

Eu estava por aí a andar nas ruas sem sentido, então veio aquela garota de branco. A garota estourou meu nariz e então estourou minha cabeça. Me deixou de joelhos, me fez implorar e eu fui sincero por horas. A garota de branco me deu ressaca no outro dia, mas havia me dado proteção na noite anterior. É uma garota estonteante, eu poderia cheirar o vestido branco dela por horas. Eu tinha que lutar, então trabalhei horas pela sua luxúriae e pela minha. Ela veio de novo enrolada em papel, me fez deitar na cama e ficamos lá por horas. Um espelho no criado-mudo e ela ficava lá o tempo todo se olhando. E ela me disse que se eu quisesse ficar no chão, eu podia contar com ela. Eu joguei uma nota de cem nela e ela foi se acabando. Era realmente um sufoco e eu precisava mais dela. Eu me joguei em cima dela e todos os meus amigos também queriam. Eu a levei para um bar e enchi meu copo de gin e tônica. Ela queria fazer no banheiro, então eu a segui. Ela me levou pelas escadas para mais uma viagem. Eu tinha ela no bolso, mas ela tinha minha cabeça. Ela me cobriu de tesão, mas aí então ela estourou meu nariz de novo. E de novo. E mais uma vez.

Quando o dia for longo e a noite for fria, e os olhos não quiserem fechar, eu estarei lá. Quando parecer que tudo vai se perder e a luz vai apagar, eu estarei lá. Quando tudo for difícil e o mundo parecer ruir, eu estarei lá. Quando a fome bater, eu farei algo para você comer. Enquanto o sono não chegar, eu sonharei acordado com você. Se você sentir sede, eu irei pegar água. Se sentir fome, eu cuidarei para que o pão de queijo não queime. Se acordar em pânico, um pesadelo ruim, eu te segurarei bem perto de mim. Sempre que for difícil, eu tornarei fácil. Se o frio incomodar, eu te manterei quente e viva na noite. Se você se sentir entediada, eu contarei piadas e cantarei canções de amor para você. Se as costas incomodarem e a tensão no ombro for insuportável, eu farei uma massagem. Se o blues não for suficiente, eu tocarei um samba. Se precisar ser saciada, eu sou seu. Se você precisar ficar acordada e entregar um trabalho, eu te ajudarei. Se precisar de um abraço, eu já estou dando. Se precisar de uma pegada no nariz, eu estarei pegando. Se precisar de silêncio, eu me calarei.

O que quer que te leve pela noite, eu farei.

O que tem dentro de mim, ninguém pode ver. Os detalhes mais íntimos, os que fazem minha vida florescer, eu não mostro a ninguém. Estão escritos dentro de mim, talhados em códigos que só eu posso entender. Eu os vejo em visões que somente meus olhos enxergam. Em fantasias que só meus anseios percebem. Em teorias que só meu intelecto é capaz de conceber. Em ave-marias de pai e mãe que eles fizeram em noites que eu tinha febre. Pouco a pouco, eu construí essa muralha ao meu redor. E ela veio, derrubou com o dedo. E tudo ruiu. Toda a proteção, a manipulação e os jogos de menino e menina.

A gente se esforça para ser gentil. A gente se esforça para só ter palavras agradáveis. Mas lá vem a estupidez virando a esquina. E lá vem ela de novo e dessa vez nem é sua. Existem certas coisas que não devem ser faladas, que devem repousar no silêncio inebriante e por lá ficarem. Elas doem e não existe necessidade de ficar ouvindo ou de ficar falando. Mas as pessoas olham – e eu me incluo aqui – para o seu próprio umbigo e só respeitam a vontade que tem de falar aquilo. E falam. E dói no ouvido e na alma de quem escuta.

Eu já sinto saudades do amanhã. Do dia que ainda não veio, do sol que ainda não se descortinou no horizonte. Das fantasias não vividas e das alegrias no porvir. Eu já sinto saudades do que ainda virá e eu ainda não vi. Eu sinto saudades de tudo que eu ainda não vivi, dos sorrisos que ainda causarei e até das lágrimas que derramarei. Das pessoas que ainda não magoei, dos pais que ainda não envergonhei. Sinto saudades do amor que já vivi e do quão mais o viverei no dia de amanhã. Sinto saudades das praias que ainda não visitei e das ondas que ainda não molharam meus pés. Das fotos que ainda não foram tiradas e da felicidade que ainda não foi eternizada. Das garrafas de vinhos baratos que ainda não abri e do tesão que me deixará mais rígido. Sinto saudade do rosto dela entrecortado pelo pôr-do-sol de amanhã.

Sinto saudade das palavras que ela ainda não falou.

Eu tenho esse sentimento que não vão voltar para me salvar. Eu fiquei só nesta ilha, com esta chuva que nunca pára. Eu tenho um sentimento que todos estão indo para cada vez mais longe e as estas vozes dentro da minha cabeça repetem sempre a mesma coisa. E não importa o que elas dizem, eu estou sempre correndo por fora. Jogaram tudo pela janela e quebraram o vidro que está acima da minha cama. Agora, os pingos estão sempre a me molhar e eu não acho razão para isso. Eu peço desculpas, mas vejo sempre um horizonte branco nos olhos dela. Foi uma, duas, três vezes e agora eu perdi. As coisas se perderam no caminho da viagem dela, as palavras se jogaram na estrada como bêbados vagabundos pedindo carona. Os sonhos ficaram na praia mais deserta, jogados e abandonados na areia paradisíaca. A água vem e molha, volta e molha. Deixando os sonhos cada vez mais frios. As ambições, não tem mais espaço para elas e elas foram colocadas no porta-malas enquanto a mente dela vagava por outro lugar que não aqui. Encostou o nariz no vidro e sentiu o frio da manhã e não pensou em mim. Abriu a boca e soltou ar no vidro para ver ele embaçar e não sentiu saudades. A música tocava alta anunciando um amanhã melhor e um sol brilhante na linah do horizonte e eu perdi. Como competir com um amanhã melhor ? Minha alma saiu de mim mais uma vez e eu estou me perdendo dentro da minha casa, a casa onde fui criado. Alguém diz uma palavra amiga mas eu já não escuto mais nada, isolado em um horizonte branco. Todas as fantasias ficaram trancadas no quarto dela e eu não tenho a chave. Um quarto branco e ela está lá andando em cima de uma linha, esticando o tempo e deixando todos os medos ficarem mais próximos da realidade. Na cama dela, uma girafa de quando eu ganhava. E eu terminei. Eu terminei como um filme. O rolo chegou ao fim e o projetor fez um clique silencioso. A cortina baixou e ela ainda assim sorriu. Sorriu.

Quando a gente é assim jovem de vinte e dois anos, o mundo está sempre acabando. Você e todas suas fantasias fazem o mundo sumir de maneira drástica. E a gente vai envelhecendo e de alguma maneira as suas fantasias não mudaram o mundo lá fora. Os seus sonhos que ficaram para trás não significaram nada para os outros seis e poucos bilhões de pessoas por aí. Todas as suas visões ficaram para você e para dentro do seu quarto sem alterar o clima, nem a programação vespertina dos canais de televisão. E o mundo não acabou, nem ninguém chorou por mais que alguns dias, nem alguém lembrou das suas vontades nos dias que choveu. O mundo continou, as pessoas continuaram vendo seus filmes, ouvindo suas músicas pop e comendo pipoca quentinha feita na hora. Primeiro veio o amor, depois o abandono. E para o resto da sua vida, a desilusão. E se a gente não tivesse piscado assim no momento exato, tudo poderia ter sido diferente. Se tivéssemos simplesmente olhado ao redor, olhado por cima do ombro, colocado a pessoa que amamos acima de nós mesmos, talvez tivéssemos aprendido algo de verdade. E agora, mesmo com toda a chuva a cair, o mundo continua girando e a gente nunca vai entender o porquê. Mesmo assim tão velho, mesmo assim tão desiludido. O amor vira respeito como Douglas uma vez disse. O amor não sobrevive ao primeiro impacto. Vivemos certamente dezenas de casos em nossas vidas, mas amor só tem um. Antes do amor de verdade, é empolgação. Durante o amor de verdade, é ardor. Depois, bem, depois é desencanto. É uma lista de escolhas e escolhemos a melhor opção, mas que ainda assim não é amor de verdade. Aquela lista cheia de copos meio vazios e meio cheios nunca se iguala ao que já teve um dia. A vantagem é que quando não é amor de verdade, você tem vista para o mar. Você vai viver para sempre entre o silêncio e o sonho. Naquele meio, naquela área onde a maioria das pessoas confortavelmente se instalaram e lá ficaram para o resto do tempo. Nem falam, nem sonham. Trocaram a intensidade pelo conforto barato. No amor de verdade, o peso está sempre lá. O amor pesa, a verdade é impura e quem ama de verdade nunca se sente confortável de verdade. O desconhecido é temido, mas nunca deixado de lado. Transcende convenções sociais e regras banais e se torna algo que se perdoa sempre. Que é mútuo e existe na sombra do outro. Uma perseguição inquebrantável pelo resto da vida. O quarto é sempre um ringue e os dois amantes são lutadores exaustos, mas com um sorriso de satisfação pela luta ser tão árdua. E por fim quando os dois caem no chão, cansados e quebrados do dia e dos compromissos, estão sempre pensando um no outro. Se socam, se chutam, mas o que querem mesmo é se beijar. E se beijam. Molhados de suor. Se é fantasia minha, eu gostaria que todos vivessem-a. Parece arrogância, mas não é. O mundo seria um lugar melhor se todos amassem como eu. Como ela. O mundo não acabaria mais em nossas visões vagabundas. Veríamos o mundo como uma arena de luta, mas uma arena onde lutam para fazer amor, não para destruir sonhos. Viraríamos olhos andantes. Olhos sonhadores. Sonharíamos com olhos sonhadores. O exagero é a base de fazer a vida valer a pena. O meio-termo pede o resto do jogo por estar sempre no meio. Sabe quando você senta na frente do cinema e tem raiva por não ver a grande tela em sua plenitude ? É assim o meio-termo. O exagero é divino. E divino é uma boa palavra para o amor de verdade. É incondicional. Só é amor, se for incondicional. Leve um tapa, leve uma traição, lave a louça, não durma a noite, incontáveis ligações perdidas, dias perdidos na ansiedade, mas não deixe de amar. Você pode amar desde o primeiro dia que conheceu alguém. Você realmente pode. Mas você só saberá quando levar as pancadas. Quando seu estômago doer e você perder a respiração. Quando seus olhos se encherem e seu telefone não tocar mais. Quando a chuva chegar, ir embora e ainda deixar os vestígios do que aconteceu lá. Se você ainda ama, você ama. Cuidado com o costume. Ele está sempre na espreita, ele se disfarça de amor verdadeiro e vem para enganar os crentes no amor divino e vagabundo. O amor é um casal vagabundo nas ruas, sempre a viajar, sempre a deixar rastros. Com desejo que o mundo lembre dele. Não é discreto, mas não precisa se expor. Existe por si só e por si só persiste. Com erros loucos, sonhos quebrados, palavras cortadas e olhos semi-cerrados, ele sobrevive. Pede por sete doses de tequila e acaba a noite na sarjeta. Morre de ciúmes, mas quer mostrar o amor ao mundo. Se tá longe, quer perto. Se está perto, quer amarrar sem nunca prender. Quer ser uma algema de brinquedo. Quer ser uma criança andando de patins. Quer ser um velho rabugento. Ele é tudo sem nunca ser nada. Não se deixa cair em tentação, mas tenta-se sempre. É malvado, te atiça e te faz sentir desejo. Não é puro, puro tem que ser a graça do senhor lá de cima. Amor é impuro, é sujo, é ardente, é fogo, é pecado, é tentação, é um carro velho e prestes a quebrar mas que insiste na estrada. Amor é estrada. É andar e nunca chegar ao fim. Amor é soul, jazz, bebop, samba, rock’n'roll. É James Dean em sua moto, é Elvis Presley na Sunset Boulevard. Susan Hayward querendo viver, Marlon Brando sobre Hollywood. Abismo que você pula, medo que gela a espinha, frio no estômago. Amor é clichê. Mas nunca pode ser rotina. Amor é ter a sensação que o céu está cheio de sonhos e que agora você pode voar. Você pode voar. Se você não pode, eu e ela podemos. E nós vamos. E não vai demorar. Se você achar que a gente sonha alto demais, acostume-se a olhar para cima.

Amor é honey, nutella, sonhos, viagens, música, girassóis místicos, o número oitenta e três, a natureza selvagem, é monga, idiota, é uma peste, é um cão, cinema, sonho de valsa, Buenos Aires no carnavel, Disneylândia, Gramados no natal, qualquer lugar a qualquer hora, é quadriciclo, é o pente emprestado do garçom, é o girassol colocado na caixa, os desenhos na caixa, a letra feia, o Petit Gateau (mãozinha para frente e para trás), os meus amigos da minha repartição, um dálmata, filosofar no museu, é lápis de cor, giz de cera, pato donald, tatuagens, é saudade também, caralho. É nariz. É nariz. É sempre nariz.

Amor é falar um monte de coisa que ninguém entende porra nenhuma e ser feliz ainda assim.