E era uma vida normal antes. Normal até demais. Os tons do dia-a-dia eram cinzas, como a maioria das pessoas. E meus dias eram cheios de ois e olás e tchaus e adeus e eu não me importava. Eram só pessoas que iam e uma hora ou outra, iam embora. Eram os bares cheio de cerveja benevolente, para esquecer de uma vida que nunca tive, para desejar um amor que eu pudesse ter, daqueles de verdade, rudes e cheios de vida. Até então, minha vida tinha tidos amores calmos, com a rotina besta a inflamar as ambições, com o conforto frio de estar próximo de alguém e só. O sorriso era um sorriso cheio de pena, dado por compaixão e não por alegria sincera e ardente dentro de mim. Aquelas mulheres eram todas suaves, suaves demais até para mim. Eu podia vê-las calculando a conta da luz, se enchendo de arroubos com uma ida ao cinema, com um jantar barato e esquecível. O trabalho era só o dinheiro, o cifrão na cabeça e os animais nas notas verdes, azuis e amarelas. O lar, o lar era onde a dor estava, com o pensamento do que poderia ser, com a aventura ainda não vivida e com a geladeira abrindo e fechando para pegar água, cerveja ou qualquer coisa que me levasse pela noite. Tudo, até então, era nada. E quando o sol sumia e a noite se revelava mais uma vez, era lugar-comum, era frio mesmo que estivesse quente, era a programação da televisão mais próxima.
Até o dia em que tudo mudou. Eu queria dizer que foi arrebatador assim que a vi, que soube que era amor a primeira-vista eterno e que nossos corações iam explodir e que nossas mentes iam estourar e que nossos corpos iam se encher de tesão. Mas não foi bem assim. Quer dizer, foi. Mas não naquele dia. Naquele dia, foi só uma cantada envergonhada, um telefone dado por interesse de um amigo gay, as promessas que toda noite a gente encontra por aí. E os dias passaram, eu ligava e ela não atendia e eu não desistia. Porquê eu não desistia ? Eu não saberia te dizer. As coisas algumas vezes acontecem sem motivos até o dia que você descobre que tudo teve um motivo. E então teve a primeira vez…
Ao invés de um beijo roubado por mim, um selinho dado por ela no canto da boca e que me incendiou e me fez perder o controle. Aparentemente, desde o primeiro o dia, notava-se que eu não seria o homem da relação. E parece que nunca fui muito mesmo. Era o computador com suas conversas quase de mentiras, com seus devaneios quase imperceptíveis, com a madrugada adentrando e o coração batendo um pouco mais forte. E de alguma forma, sozinho, dentro do quarto, ali já era vida. Com tão pouco, eu ia começando a sentir bem mais, bem mais que todo o tempo da minha vida.
E ela era diferente. E ela é diferente. De alguma forma, ela me fascina. Me fascina mais que os livros, conhecimentos perdidos e símbolos secretos do nosso tempo. Eu olho para ela e vejo uma tela. Uma tela que ao mesmo tempo que está em branco, está em constante eferverscência. E eu sou o homem de óculos escuros, porquê eu já vou te avisando aqui, se você olhar diretamente para ela, o brilho dela te cega. O jeito dela andar te deixa com vergonha. O mundo gira na velocidade dos passos dela. Eu acho que deve ser os olhos sonhadores. Eu acho que deve ser o jeito que ela fala, gesticulando sempre que fala dos sonhos e das aventuras. Eu acho que tem a ver com o jeito que ela morde o lábio quando dança. Mas pode ter a ver também com o jeito que ela sorri quando ela vê algo que gosta. E quando ela coloca a mão dela em mim, eu sinto um calor na espinha, um tremor disfarçado nos olhos, uma interrupção no raciocínio. São três anos e contando e eu sinto a mesma coisa. E como é bom. Com ela, os anos deixam de ser um amontado de dias vazios e se tornam recipientes para aventuras no porvir. Para sonhos que são tão altos que as pessoas precisam olhar para cima. Para aventuras tão distantes que só nós dois conhecemos. De alguma forma bela, ela prova que Einstein estava errado. Ela acelera além da velocidade da luz, ela distorce o espaço-tempo ao redor. Se um dia eu conseguir decifrar o que faz ela se mexer assim, eu viro cientista. Eu postularei e comprovarei que ela pode mudar o tempo. E se eu não conseguir provar, está tudo bem. Ela altera a velocidade que meu coração bate. Ela altera a minha percepção da vida e do que ainda tem para ser feito. A cerveja é mais gostosa ao lado dela, o cinza dá lugar a um espectro de cores imenso, a suavidade dá lugar a intensidade e a paixão barata dá lugar ao amor sedento. Que brilha. Que arde.
E se eu fosse escrever nossa história, aqui não seria, pois existem páginas e mais páginas de amor perdido, desenganos que nos deixaram frios na noite, maldades que nunca superamos. Para além do bem e do mal, isso foi vida. Das selvagens, que arrancaram nossos cabelos. Algumas vezes foi bom, outras não. Mas toda esta história fica para um livro, que eu sei que ainda vou escrever, que eu sei que ela ainda vai ler, que eu sei que as pessoas irão querer algo parecido.
O que escrevo aqui e agora e hoje é para dizer que ela me chama de exagerado. Mas se eu não for exagerado por ela, qual seria o motivo disso tudo ? Qual seria o motivo de eu ter fincado meu pé aqui ? Eu não finquei bandeira nenhuma aqui, ela seria fácil de tirar. Eu finquei o pé, o meu pé nesse país. Nesse território que ela tem. Que é selvagem, que é amistoso sem deixar de ser hostil, que é de difícil exploração, mas tem as paisagens mais belas que o universo pôde conceber. Esse país é ela. E quando ela me chama de feio, que posso eu fazer, a não ser me curvar para receber um carinho gentil, uma palavra meiga que vai me manter quente na noite fria ? Eu já passei da fase de implorar, eu já passei da fase da compaixão. O que sobra agora é ter. É viver. É paixão. É clichê, mas está tudo bem, às vezes o clichê é o melhor a ser falado. E quando ela me chama de ridículo, como eu posso negar ? Se sou eu aquele que exagera ? Quem exagera tende a passar por ridículo, mas cá entre nós, quem liga ? Colocando os fatos e os copos de cerveja na mesa, ela já me ganhou. Acho que falta eu ganhar ela. E se eu ganhar ela, será que vai ser para sempre ? Cá entre nós, não importa se vai ser para sempre ou não. Eu vou acordar toda manhã com a sensação que tenho que reconquistar aquela menina de novo e de novo e de novo e sempre mais uma vez. E eu nunca vou me cansar. Ela pintou minha vida e eu temo que ainda há muitas paredes em branco para pintar. Se eu aprender a desenhar, eu posso pintar a vida dela um pouquinho também ?
E quando ela vem e me mostra o sol…
Eu só consigo dizer que é místico, místico, místico…
E eu vou dormir. E assim como em muitas noites, eu sonho com ela. E eu espero sonhar hoje de novo. Será que alguma noite ela sonha comigo ?