Eu posso ouvir as gaitas bem longe de mim. Eu posso ver as estrelas morrendo no limiar do horizonte. Eu sinto o dia terminando para sempre e a noite escura a começar. Olha só esse céu. Combina bem com o som das gaitas, esse blues entristecido que sempre estive a ouvir no canto do meu ouvido. Eu pude sentir o amor fugir da cidade roubando um carro e assaltando lojas somente para se sentir vivo. E foi quando o amor chegou aqui, que nada mais ficou no lugar que costumava ficar. Tinha esse novo céu, esta nova música, esta honey selvagem, estes tempos de viver. Mas agora, agora, você pode ouvir a gaita ? É tão triste, não é ? Entra pelo ouvido como uma canção daqueles caras lá do Mississipi. É engraçado, eu posso ver o tempo. Eu posso ver o tempo nesta noite escura. Aponta sempre para o mesmo lado e nunca olha para trás. Parece querer te lembrar que se perdeu, perdeu. Eu posso sentir, sabe ? A música saindo de mim, o tempo caminhando para longe, as gaitas sumindo. Eu posso imaginar você longe daqui, nunca perto. Trazendo para mais perto de mim o que eu nunca pude sentir novamente. Quando o amor chegou a cidade, você veio de mãos dadas com ele. Parecia que ia ficar para sempre. A gente sempre pensa que as coisas boas ficarão para sempre, né ? A gente é tão ingênuo quando ama, tão louco. Gente é tão louca, né ? E a gente nem sequer sabe se gosta disso ou não, desta loucura toda. Porque quando as coisas não dão certo, a loucura vira parâmetro para julgarem tudo que você sentia como algo errado, como mais uma daquelas loucuras. Você fica a ouvir estas gaitas que tocam longe sozinho. Você pode perceber em que escala elas tocam ? É um som tão melancólico, parece que chora no seu ouvido. Será que lá no Mississipi eles amam ? Com todas estas minhas visões, a cidade ficou dividida em duas. Agora tudo que eu faço é contar as listras na pista, olhar para o céu escurecendo, todas as estrelas retrocedendo como pontinhos brancos na escuridão, fumar a saudade, olhar no retrovisor, olhar o passado. Ver todas as pessoas indo e vindo, os carros que bateram, os policiais que autuam, os homens que se perdem. O mundo evoluindo e as pessoas ficando cada vez mais distantes. Crescendo para se separarem. Hoje as mulheres não acreditam mais no casamento, os homens acreditam nas festas, as pessoas fantasiam mas não acreditam mais no amor. E quando o fazem, o amor tem que ser normal, talvez não precise ser contido, mas se parecer algo forte demais, os pássaros voam. Intensidade é obsessão. Nosso mundo tem medo da cumplicidade. E eu queria ser como dois parceiros no crime, sabe ? Como aqueles blues antigos que cantavam dois contra o mundo. Nós contra o mundo. Será que lá no Mississipi tem um casal assim ? Brigando contra o mundo ? Será que eles escutam as gaitas como eu, tão longe, escuto ? É engraçado, eu estou completamente cego e meus olhos estão abertos. Lavo minhas mãos em águas sujas e as pessoas se distanciam mais. E eu não ligo mais, sabe ? Eu nunca liguei para nenhuma destas pessoas. E a única pessoa que eu liguei, julgou que eu me importei demais. Ou na realidade, para ela, que eu não amei de verdade, fui doente, fui sabe-se lá o quê. O que sabemos ? Sabemos tanta coisa na hora de julgar. O amor dói, como os antigos cantavam. Estas pessoas estão sempre a dizer que passa. Oh, eu tenho certeza que quase sempre passa. Mas e os poucos casos que não passa ? Elas não sentem minha dor de cabeça, minhas náuseas, minhas saudades, meus sonhos, elas não podem sentir meu amor. E elas com certezam, não escutam estas gaitas que eu escuto, vindo lá do Mississipi…
Onde será que ela anda agora ? Quando eu me for, será que o céu nesse dia vai parecer diferente para ela ? Será que ela vai poder escutar estas gaitas ? Ou guitarras, ou flautas, ou cítaras, ou vidas, ou amores. Ela me sentirá ? Eu sinto ela o tempo todo, correndo nas minha veias, dentro e fora do meu cérebro. A alma dela vai sentir um aperto quando eu sair daqui ?
Eu sei que em meu derradeiro momento, eu lembrarei do girassol nas costas dela. De como ela vai transformar aquilo em outra coisa qualquer e vai me esquecer mais ainda. Eu lembrarei do Donaldo, aquele dançarino desgraçado. Do woody, aquele safado que sempre esteve onde eu queria estar. Do Nestor com aquele cabelo sempre assanhado igual como ela imaginava estar o dela. Do camelo que nunca pudemos lembrar o nome certo, eram dias loucos. De todos os filhos que eu nunca pude ver novamente. De todas as vezes que eu toquei violão para ela enquanto ela estava em outro continente. Porquê eu não consigo parar de chorar ? Mas como eu posso me esquecer da briga inútil em outra cidade e do outro dia tão divertido no museu a filosofar ? Da aventura para conseguir bater mais fotos. Do sorriso dela. Como eu poderia algum dia esquecer daquele pedaço divino de Deus e paraíso em minha vida ? Ela vai lembrar de mim quando ouvir Oasis por aí ? Será que ela vai soltar um sorriso ?
Eu não consigo parar de chorar, meu deus. Porque eu tirei tudo que eu amava de perto de mim, hein ? Eu me sinto tão culpado. Como é ruim sentir saudades assim… Eu só consigo lembrar do dia em que estávamos a sós e eu chorei nela. Eu babei ela toda. Eu chorava tanto e ela assustada querendo saber porque. E eu só consegui dizer que era saudade…
Saudade, honey… saudade… tanta saudade…